Ela é uma skatista profissional daquelas que já ganhou tudo. Em 2011 pegou o bronze no X Games; em 2013 foi ouro em três das cinco etapas, em Foz do Iguaçu, em Barcelona e em Los Angeles. Foi eleita a melhor mulher do street skate na Copa do Mundo do Skateboarding e, em outubro passado, levantou o caneco com a primeira colocação na Liga do Skateboard de Rua (SLS).
Aos 22 anos, Leticia Bufoni está no auge.

Seus olhos brilham quando ela fala da sua carreira. Diz que tem o melhor emprego do mundo: consegue viajar e andar de skate o dia todo, vive bem, malha e anda para cima e para baixo com a sua turma – a maioria brasileiros. Aperto um pouquinho e ela confessa: gosta de competir, mas andar na rua e filmar com amigos em picos naturais é muito mais divertido. 

A gente fez as fotos em LA no único dia do ano que começou com uma chuva de granizo e com um frio de gelar os ossos de qualquer brasileira – especialmente uma brasileira pelada em cima do capô de um carro.
Levei a Leticia para a casa de uma amiga em Venice Beach, a dona desse conversível branco, que apesar de ser fotogênico não funciona muito bem. O carro se chama Hannelore. Se a Leticia fosse fazer uma tatuagem para se lembrar deste ensaio, eu gostaria muito que ela escrevesse Hannelore em uma fonte romântica no antebraço. Quem sabe ela faz...

Já fechou quase um braço inteiro e as mãos estão pingando de tanta tinta. Diz que vai deixar o outro braço mais limpo para agradar o pai. Algumas tattoos servem para cobrir as cicatrizes, outras são dedicadas a pessoas especiais, como os dois sobrinhos.
“A vida dela está escrita em sua pele: hematomas, cicatrizes e muitas tatuagens”
Autumn Sonnichsen
Na batata da perna, sua primeira tatuagem grande, um retrato do Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses, que ela fez aos 17 anos. “Hope” e “Fé” ela leva escrito nos dedos. SP e LA, as duas cidades que ela chama de casa, estão marcadas atrás das orelhas – Leticia cresceu na Vila Matilde, em São Paulo, onde começou a andar de skate antes dos 10 anos, e mudou-se pra Los Angeles aos 13 para começar a viver do esporte. Minha tatuagem favorita está na mão dela: “Trouble”, que ela fez com a amiga Clara Aguilar, ex-BBB, no Hard Rock Hotel em Las Vegas, depois de uma noite daquelas, que acaba com tatuagens provocantes escritas pra sempre na pele.
Nos conhecemos no dia em que fizemos as fotos. Ela estava de muleta e com uma bota no pé esquerdo. Torceu o pé  enquanto gravava uma manobra para o canal de internet  The Berrics. Ela mal conseguia andar e sentia dor ao ficar de pé, o tornozelo parecia uma bola roxa de tão inchado. Mas ela chegou de sorriso grande, bronzeada, me olhando nos olhos. Se espreguiçou na cama, a chuva fina caindo lá fora. Me contou que estava solteira, que nem pensa em namorar, que viaja demais para ter alguém fixo. Levantou a bunda, ficou descabelada, vestiu uma cueca verde que cabia justinha no quadril dela. Vi a glória de uma mulher jovem com seu corpo no ápice, forte, confiante, no início da vida e já com tanta história. 
Quando o sol saiu, fomos para as ruas de LA, ela de muleta e shortinho, soltando o cabelo, levantando o pé machucado com o maior cuidado. Mesmo com dor, o corpo dela vibrava, o sorriso abria, a mulher está viva, pronta. Do jeito que a gente gosta.

Gostou? Veja todas as fotos na Trip #253. Já nas bancas!

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