Quantos brasileiros correm o risco de morrer? De acordo com o estudo australiano, no cenário mais conservador, seriam 257 mil. Precisa ser assim? De jeito nenhum. Mas, para evitar tal tragédia, precisamos agir agora. Por mais duro e difícil que pareça, um regime de distanciamento social amplo talvez seja o único caminho a seguir para evitar o mal maior.

Enquanto a grande maioria de países tardou em responder no momento certo, Singapura, Japão e Hong Kong deram o exemplo e iniciaram a testagem molecular intensa (importantíssimo!) e o isolamento de portadores e seus contatos. Crucialmente, lá a curva de crescimento da doença tem demonstrado um comportamento ascendente moderado, porque medidas de contenção foram implementadas no momento correto. Estão conseguindo controlar o surto porque fizeram intervenções antes do crescimento exponencial da doença. Desta forma, conseguiram até agora impedir a saturação do sistema hospitalar. Ao contrário, países que não fizeram isso (Irã, Itália, França, Espanha e Alemanha, por exemplo) estão vendo o total de doentes dobrar a cada quatro dias. Perderam a oportunidade de barrar o avanço do surto antes da fase exponencial.

Brasil pode ter 4.000 pessoas com coronavírus em 15 dias após o 50º caso

Análise do Instituto Pensi aponta ainda que o país poderá precisar de 2.000 leitos nos primeiros 21 dias



Uma análise do Instituto Pensi, centro de pesquisa clínica em pediatria do Hospital Infantil Sabará, aponta que, a partir do momento em que o Brasil tiver 50 casos confirmados de coronavírus, o país poderá chegar a mais de 4.000 casos em 15 dias e cerca de 30 mil casos em 21 dias.
O país tem 34 casos confirmados até esta quarta-feira, segundo o Ministério da Saúde.

Além disso, considerando a quantidade de casos graves e críticos na China e os períodos de internação desses casos (7 e 14 dias, respectivamente), o Brasil poderá precisar de cerca de 2.100 leitos hospitalares, dos quais cerca de 525 em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) apenas nos primeiros 21 dias, após comprovação de 50º caso.

A análise mostra que, a partir de 50 casos, Coreia do Sul, Irã e Itália tiveram evoluções surpreendentemente semelhantes. Além disso, países como França, Alemanha e Espanha parecem mostrar evolução semelhante à tríade Coreia do Sul, Itália e Irã.

“O grande desafio é a velocidade com que o novo coronavirus (covid-19) se espalha e gera pacientes graves”, diz a análise.

O documento técnico foi elaborado para contribuir para a análise e a ponderação de medidas e ações apropriadas no enfrentamento das consequências de um possível aumento significativo de casos no Brasil nas próximas semanas.

Em pouco mais de dois meses de evolução, o novo coronavírus infectou mais de 110 mil pessoas em todos os continentes, matou mais de 4.000 e mostra franca e vigorosa expansão fora da China.

Nosso problema neste momento é saber qual caminho tomar. Como incentivar nossos gestores de saúde, prefeitos, governadores, ministros, congressistas e o presidente a considerar que as intervenções não farmacêuticas de mitigação por distanciamento social (evitar aglomerações, fechar escolas ou tornar a presença de alunos facultativa, incentivar trabalho em casa, isolamento de idosos com comprometimento etc.) devam ser implementadas imediatamente?

Como fazer entender que se houver crescimento explosivo da doença o sistema hospitalar vai colapsar e a funcionalidade da sociedade será profundamente prejudicada? Como diz o matemático americano Albert Bartlett, “a maior inabilidade da raça humana é nossa incapacidade de compreender a função exponencial”.

Paolo Zanotto
Virologista com doutorado pela Universidade Oxford, é professor no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, onde pesquisa vírus emergentes como zika, dengue, chikungunya e febre amarela

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